Arquivo Freeko: vida e obra de Pablo Miyazawa

 

O “garoto carisma”, como é chamado nos ringues, dirige um Humvee (da extinta montadora americana Hummer), símbolo do império consumista sem qualquer compaixão com o tal do meio-ambiente. Estacionando com pressa, o jornalista e powerliner deixa o carro com três rodas em cima da calçada e a outra num triciclo agora destruído.

Com um indefectível sorriso no rosto, Pablo Miyazawa cumprimenta a equipe de reportagem do Freeko com o costumeiro abaixar de ombros dos asiáticos e decide pedir uma garrafa inteira de Jim Beam – e nenhuminha pedra de gelo. Marcelo Daniel, Doda Vilhena, Gus Lanzetta e eu já estávamos no MSN através da Live Brasil para tirar a limpo as maiores questões da vida de Pablito.

A conversa que se seguiria seria bruta, impiedosa, gastronômica. Pablo aceitou a oferta de virar editor-master-pleno da revista Rolling Stone, onde está há quatro anos, e, pior, aceitou falar com o Freeko sobre os significados envoltos em toda essa operação. Se não estivéssemos preparados, poderia acontecer o pior. Mas, conhecendo Pablo e sabendo de seu controle sobre as situações, relaxamos e tudo deu certo. Num golpe de mestre arquitetado rapidamente, graças a anos de experiência, Freeko quebrou o embargo sem ninguém perceber e publicou esta entrevista exclusiva mundial antes de muita gente por aí – vai dar rolo, mas e daí?

É com orgulho que vamos clicar no Publish ali no canto para tornar público este material de inigualável pujância, de aditivado esmero. A seguir, a entrevista completa, sem qualquer tipo de edição, seja nos negritos ou mesmo nos parênteses.

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Pablo na sede mexicana do Rolling Stones, sendo entrevistado para uma entrevista de algum outro veículo, não temos ideia de qual - e muito menos sabemos o nome da mina aí

Freeko – Você era só um rapaz como eu você, mas agora está no topo da civilização ocidental, mesmo com alguns traços orientais. Qual o segredo do seu sucesso, além do carisma +55?

Pablo: Eu penso, imagino, acredito que seja um lance de berço. Não no sentido de origem, mas de educação mesmo. Meus pais sempre me ensinaram a ser um cara legal para com o próximo, sempre pensar no coletivo, sempre tratar as pessoas com respeito. O lance do astral, do sorriso, veio com o tempo, à medida que os dentes ficaram bem posicionados na boca. Não tinha ideia de que sorrir é o melhor remédio e a melhor maneira de abrir portas. Se você tratar as pessoas bem e tiver caráter, é difícil não se dar bem na vida. E na carreira profissional é isso, somado a honestidade, respeito aos colegas e uma preocupação em passar sempre uma boa impressão. Foi meio que por aí. Quando fui ver, já estava aqui, trabalhando em revistas há 12 anos.

Freeko – Você escolheu revistas ou elas te escolheram? O compromisso com a gastrite e outras doenças saudáveis da profissão começou quando aquela garotinha te esnobou na escolinha ou foi mais uma pegada de compromisso com a verdade?
Pablo: Nunca tive muita escolha. Revistas te escolhem, e é bem isso. Eu não sabia o que fazer da carreira no terceiro ano de jornalismo da PUC. Acabei redator na Acme, editora liderada por André Forastieri (com Rogério de Campos). A internet era um extraterrestre na época, então era revista que todos sabiam fazer. Já trabalhei em site, fiz um projeto de web pessoal que deu certo (o Gardenal.org, em 2004) mas adoro esse negócio de papel colorido. Sou das antigas. Então, vou continuar fazendo enquanto me der na telha e enquanto me pagarem pra isso. O lance da gastrite é mais recente, e veio do excesso de fechamentos acumulados desde 1998. Acho que minha origem japonesa também contribui pra isso, segundo meu médico. Eu acredito, mas também acho que poderia ser evitado. Mas considero quase inevitável eu não sofrer do estômago passando por essa rotina de prazos, pautas e textos diariamente. Não há profissional que aguente. Jornalista que não tem problema estomacal é porque não está se esforçando muito (isso é brincadeira exagerada – o que chamam de “hipérbole”).

às 3h da manhã, ninguém está muito interessado em papo de jornalista – seja lá de qual segmento for.

Miyazawa Amigo da Garotada: camaradagem unânime - sua trajetória de sucesso foi marcada por tapas nas costas, abraços amistosos e fichas de fliperama emprestadas

Freeko – Confirme a fama: as groupies de jornalistas de rock são mais ajeitadinhas que aquelas que margeiam os jornalistas de games?
Pablo: Sinto derrubar esse mito, mas jornalistas de rock não têm groupies. Nesse quesito, os jornalistas de games dão de dez a zero. É no mundo louco dos videogames onde está localizada a verdadeira putaria generalizada – sempre com educação, no bom sentido. Não me levem a mal, groupies dos games. Brincadeira – não há groupies nos games. Mas garanto que o mundo do jornalismo musical não tem nenhum glamour. Pelo menos não tanto quanto pensam.

Freeko – Pablo, numa balada, às 3h da manhã, no veneno, o que excita mais uma mulher: um editor da mais eficiente e antenada revista de games/tecnologia ou o editor de uma publicação que dita as tendências de moda, comportamento e música desde que o mundo é mundo?
Pablo: Olha, acho que às 3h da manhã, ninguém está muito interessado em papo de jornalista – seja lá de qual segmento for. Então, acho que dependendo do momento, a última coisa que eu mencionaria é a revista em que trabalho. Seja ela uma revista antenada, seja ela uma lançadora de tendências. Ninguém se importa muito com essas coisas no mundo real. É o que dizem – quem lê expediente de revista é jornalista procurando emprego. O leitor não está interessado na gente. Muito menos a leitora.

Freeko – Com quem você aprendeu tudo o que sabe hoje?
Pablo: Acho que foi com a vida, essa severina. Na verdade, com experiência de trabalho. Eu já possuia conhecimento de fã e consumidor das coisas que eu mais gosto – a dizer, música, games, nerdices, cinema. Falar sobre isso profissionalmente é outra história. E só trabalhando para conseguir adquirir conhecimento para falar sobre o assunto de maneira pública, sem passar vergonha. Quando comecei nas revistas de games, eu não sabia nada sobre fazer revistas, e nem muito sobre escrever sobre games também. Fiz isso durante oito anos, e aí não havia como não aprender. Sobre música, escrevo há quatro anos, mas curto o assunto há muito mais tempo. Quando você junta interesse pessoal com o interesse profissional, é possível que o resultado seja adequado. Não é garantia de sucesso, porque sempre há a chance de você não ter o dom para a coisa. Acredito nisso de dom, talento, etc. Mas também creio em perseverança e humildade (mas que papo mais jogador de futebol). Quer dizer, você está sempre aprendendo. Nunca sabe de tudo. Mas tem que insistir, tentar, errar para aprender. Um dia, você aprende. E com experiência, irá melhorar. Eu leio meus textos antigos e dou risada. É como ver fotos suas de adolescente e ficar feliz por não ser mais desengonçado, espinhento e magrelo.

Eu leio meus textos antigos e dou risada. É como ver fotos suas de adolescente e ficar feliz por não ser mais desengonçado, espinhento e magrelo.

Freeko – Você planeja as paradas ou vai levando?
Pablo:
Eu não planejo porra nenhuma. Se tivesse planejado, na certa teria dado errado. Porque é assim que funciona. Se você tivesse chegado em mim em 2005 (e você chegou, lembra?) e me perguntasse: “E aí, 2010?” Eu diria, “sei lá!”. O bom é que tive sorte e fiz escolhas certas. Muitas vezes pude fazer a escolha errada, mas no fim das contas, acabei indo pro lado certo. Não sei se isso se aprende em algum lugar. Eu curto estabilidade, por isso fico tanto tempo nos lugares. Já estou aqui há 4 anos. Me pergunte “E aí, e em 2015?” e eu vou responder “não faço ideia”. Mas no fundo, estou torcendo para estar ainda melhor. Todo mundo é assim, não?

Freeko – O que são os games pro senhor?
Pablo:
Ah, game é mais um assunto para a gente se dedicar. Nada de mais. Quem enxerga como outras coisas provavelmente não entende bem sobre o lance. Quem joga, sabe que é algo bom e que vale a pena. Pode ser mais importante para alguns do que para outros, mas e daí? Não importa. Eu curto games, porque games são legais, e não porque significam ou representam algo maior. São produtos manufaturados vendidos em caixinhas e que custam caro e nos divertem. Curto games tanto quanto curto livros. Ou ir ao cinema.

Freeko – Contigo na fita, podemos esperar mais espaço ou pautas maiores para a área de games/tecnologia (leia-se games à exceção do Nintendo Wii)? Ou você vai mandar encaixotar a editoria?
Pablo:
Pelo menos, é o que se espera – que eu aumente a participação das matérias sobre tec e games na RS. Mas isso já acontecia antes, então acho que nem vai precisar ter uma guinada nesse sentido. Os temas se misturam. Antigamente, a ligação entre música e games era ainda mais óbvia. Hoje, não está tanto assim. Mas eventualmente as histórias vão surgir. Nessa última edição, emplaquei uma matéria sobre o evento Blizzcon. Na próxima, possivelmente, falaremos dos controles de movimento. Mas quando não houver assunto, não falaremos nada. Eu diria que vai ficar igual, mas não posso prometer.

Freeko – The Beatles: Rock Band passou e não foi capa da RS. Os games vão evoluir tanto na cultura pop que vai chegar um dia em que teremos um jogo na capa da revista, ou vice-versa? – esclarecemos que ninguém aqui na pauta entendeu esse vice-versa, mas resolvemos deixar pela liberdade de expressão e crença.
Pablo:
Duvido que algum game será capa da RS em um futuro próximo, mas quem sou eu pra duvidar da evolução? Acho que os games estão longe de ter alcançado seu auge de popularidade, mas sinto que esse processo de “desnerdização” ficou mais lento no último ano. Antes, havia essa convergência de jogos e rock que era óbvia demais para ser ignorada. Agora, estamos em um estágio estacionado, e não acho que os controles de movimento como Move e Kinect irão contribuir muito para elevar o patamar dos videogames no interesse geral. O próximo passo (realidade virtual?) talvez ajude nesse sentido. Mas tem muita coisa a evoluir ainda. Este é o que se chama de “período de transição”. Ou, em outras palavras, aquela fase em que “porra nenhuma acontece”. Mas sou eu dizendo – talvez muita gente por aí esteja empolgadíssima.

Freeko – Ainda nesse mesmo bonde, os chamados games de música, também conhecidos na mídia especializada como “games de música”, já evoluíram o suficiente? Nós teremos novos flertes entre as duas indústrias num futuro próximo ou apenas uma boa manutenção do namoro já existente?
Pablo:
Foi o que falei (falei? Acho que não): estamos em um estado de letargia nesse sentido, e não acho que Rock Band 3 sozinho irá mover as coisas. Eu espero que os jogos musicais evoluam, e sinto que o caminho é diminuir a diferença entre tocar e tocar, se é que vocês me entendem. Se as pessoas irão aprender a compor em uma guitarra por causa dos videogames, estou achando difícil, e sinto que a indústria de games compartilha dessa opinião comigo: certas coisas os games jamais irão conseguir reproduzir. A melhor maneira  de aprender a tocar é juntar os amigos em uma garagem e ligar tudo no volume 11 [nota pros leite com pêra: tradicionalmente, a escala de volume nos equipamentos musicais vai até o numeral 10]. Nos games, tudo ainda é hermético demais, muito esquematizado. Não há espaço para a coisa mais legal de tocar guitarra, que é improvisar, fazer barulho sem culpa. Estou esperando esse dia chegar – um game do tipo “Guitar Loser” – pra ficar fazendo microfonia com o volume no talo e, no final, quebrar a guitarra em pedacinhos. Seria legal.

A melhor maneira  de aprender a tocar é juntar os amigos em uma garagem e ligar tudo no volume 11. Nos games, tudo ainda é hermético demais, muito esquematizado

Freeko – Você se irrita com aqueles caras que tratam a revista como “o Rolling Stone”, no masculino? E quem fala “a Rolling Stones”, como se fosse aquela banda do Paul (ai, o Paul, gente…)?
Pablo:
Não irrita não, porque é a maioria. No começo achava chato, agora é mais engraçado do que qualquer coisa. O importante é a revista ser comentada por aí. Mas quando posso, eu corrijo a informação. A parte mais complicada é fazer todo mundo entender que a revista não é de música apenas – e essa compreensão existe porque confundem o nome da publicação com o nome da banda do Mick Jagger (ou do Paul, dependendo do diferencial). Mas toda propaganda acaba sendo boa, no final das contas.

Freeko – Nessa não tão curta jornada pelo mundo da cultura pop, qual a persona que mais curtiu entrevistar – se a resposta for Tommy Tallarico teremos alguns momentos de indignação por aqui.
Pablo:
Tive bons momentos nesses quatro anos. Curti falar com gente do cinema, porque falam muito mais do que gente da música. Danny Boyle, Sylvester Stallone, Matt Groening, Hugh Jackman, Samuel L. Jackson, Scarlett Johansson, John Malkovich, Robert Rodriguez, Anthony Hopkins. Os caras dos quadrinhos também – Frank Miller, Dave Gibbons, Neil Gaiman. Mas recentemente tenho me divertido com entrevistados brasileiros: o Pedro Bial foi particularmente legal de fazer, assim como o Tiago Leifert. Mariana Ximenes foi desafiador também. Sabrina Sato foi engraçado. E no rock, curti dissecar a relação dos ex-Sepultura Max e Iggor. E na política, foram belas experiências entrevistar caras como José Dirceu, José Serra e Marina Silva. E os “esportistas”, o André Akkari do pôquer e o Anderson Silva do MMA. A parte boa é que nenhum dia é igual ao outro – só surpresas.

Miyazawa Cidadão do Mundo: com a carreira em total ascendência, anda viajando mais que representantes comerciais da indústria farmacêutica

Freeko – Tenho um primo que toca violão e compõe bem pra chuchu. Ele inclusive está gravando um disquinho. Tem como a gente ver isso aí?
Pablo:
Claro, peça pra enviar o disco aos meus cuidados.

Freeko – Fomos até a rua Sta Efigênia e compramos uma escala de 0 a 5 que mede o peso/importância/valor notícia de celebridades no contexto da cultura pop. Gostaríamos que você fizesse sua classificação, sendo 0 equivalente a “tô sussa” e 5 “importante bragaray”:
- Lady Gaga, Kate Perry, Beyoncé – cantoras porretas => Eu diria 4, dependendo do momento.
- Barack Obama, Dilma Roussef – líderes => 5, mesmo que não façam nada e só fiquem quietinhos.
- Microsoft Kinect – esqueminha de movimentos => 2, podendo ser 3, dependendo do impacto e do zeigeist.
- Família Restart – programa da MTV => 3, esses fenômenos são interessantes de se observar.
- Família Manson – povo meio brabo aí da década de 70 => 3, já falamos sobre eles. Muitos leitores preferem a parte histórica que a revista pode proporcionar, mais do que as atualidades.
- Rafinha Bastos – apresentador stand up e gênio contemporâneo => 3, o cara é bem popular.
- Belo – rei do pagode romântico e estilo de vida => 1, não é muito a nossa praia.
- Gus Lanzetta – menino nosso => 5, colaboradores são muito bem tratados por aqui.
- PES 2011 – Silvio Luiz => 2, nem todo mundo curte PES hoje em dia, não?
- Pirataria – vítima de um tempo => 1, isso já é chover no molhado.
- Música Popular Brasileira – Otto => 3, podendo ser 4. Depende do que estiver fazendo na hora.

- Pablo, numa balada, às 3h da manhã, no veneno, o que excita mais uma mulher: um editor da mais eficiente e antenada revista de games/tecnologia ou o editor de uma publicação que dita as tendências de moda, comportamento e música desde que o mundo é mundo?
Olha, acho que às 3h da manhã, ninguém está muito interessado em papo de jornalista – seja lá de qual segmento for. Então, acho que dependendo do momento, a última coisa que eu mencionaria é a revista em que trabalho. Seja ela uma revista antenada, seja ela uma lançadora de tendências. Ninguém se importa muito com essas coisas no mundo real. É o que dizem – quem lê expediente de revista é jornalista procurando emprego. O leitor não está interessado na gente. Muito menos a leitora.

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Renato Bueno é vítima da sociedade, e por isso joga tudo essas porcaria de joguinho.