Pode parecer o contrário, mas estacionar um carro de ré tem seu nível de dificuldade. Há a preocupação física da diagonal bem feita para que o posicionamento traseiro seja correto, leve e preciso. Existe ainda o fator financeiro, já que ninguém quer bancar a lateral do New Civic à direita, tampouco a do carro chinês à esquerda. Por fim, existe toda a carga freudiana de um bom estacionamento, estritamente ligada à libido (“um cara bom ao estacionar faz miséria na cama do motel, blá, blá, …”) e à confiabilidade (imagine pedir ao seu futuro sogro para que ele desça do carro para “ver se vai bater”).
No momento em que o manobrista do estacionamento do Museu da Imagem e do Som – MIS (SP) percebeu a perícia do carro preto da reportagem de Freeko, não teve dúvidas ao emitir seu alerta: “Vocês vão pro negócio dos joguinhos, né? Tem como parar naquelas vagas ali, ó”?
A ideia veio da gringa e está em cartaz até 8 de janeiro com a missão de explorar “a história, a cultura e o futuro dos videogames” – a verdade é que o conjunto da obra consegue abordar com excelência apenas o pilar do meio. O fator histórico parece um pouco incompleto, com alguns títulos que talvez não tenham feito tanto sucesso por aqui (pelo menos não em Pirajuí) e alguns que passam a impressão de terem sido colocados por lá para preencher os espaços. Agora, quanto ao futuro, isso aí ninguém sabe, não é mesmo? É como sempre diz o Bueno: “esse tipo de futuro aí, o dos games, a Deus pertence”.
Primeiro console da história. A coisa era tão tensa que nem os irmãos mais velhos podiam jogar, só os pais mesmo. E você ainda pensava que Populous é que era chato.
O primeiro espaço é totalmente dedicado às velharias. Máquinas de fliperama com títulos maravilhosos, que se resumem a retângulos, triângulos, cores e, com muita sorte, alguns círculos. Um Telejogo gigante é projetado na parede e dois rapazes se acabam em suor, ante o ambiente fechado, com luz intensa e aquelas camisetas da Galeria do Rock, que já trazem o cheiro na axila de fábrica. Em seguida, assume o posto um japonês maravilhoso, um pouco obeso, que olha intensamente para os lados em busca de um adversário no Telejogo. Não há a opção de jogar sozinho, contra o computador, mas ele não tem amigos.
Naquela época a febre pelos games era tão intensa que sequer prestaram atenção à joanete turbo da mocinha
A sessão de portáteis nada mais é que uma grande homenagem à série Pokémon, franquia revolucionária, que marcou época ao fazer com que o Game Boy vendesse mais que Cialis. Uns trambolhos maravilhosos, genéricos do GB e até um inusitado lançamento da Mattel na área.
No total são 11 setores, com classificações como kids, países, multiplayer, tendências, trilha sonora e outras. Há ainda um setor específico aos grandes personagens: Sonic, Mario e Virtua Tennis.
Pontos Altos
Vocês lembram do Moon Patrol [à época, pronunciava-se ‘mun patról’], não? Do Atari? Então, rapaz, a Game On traz uma versão dele mais detalhada, com um carro bonitinho e gráficos mais atraentes. Vocês, que escrevem sobre games, saberiam dizer se foi feita alguma outra versão dele? Vê isso aí pra mim.
SVC Chaos: SNK vs. Capcom! O que era aquilo, hein… Quando na vida alguém poderia imaginar dar um cacete no Vega, que por problemas na alfândega chamava-se Balrog, utilizando o Kim Kaphwan, do finado King of Fighters? Lembrando que esse último lutador foi o responsável por popularizar o corte de cabelo surfista no ocidente. Esse jogo para Neo Geo é animal e possui um detalhe muito interessante: antes do início de cada cenário, aparece o nome do local e o horário em que vai rolar a treta. Algo semelhante também acontece antes do início das músicas de The Beatles: Rock Band, mas estamos aqui falando de videogames sérios e não essas porcarias que esse tipinho que está ficando com sua ex costuma jogar.
Aooos menino aí! Tchê tcherere, tchê tcherere! (esta foto está concorrendo ao Prêmio Rei da Espanha de Fotografia, se puderem votar)
Adorava os labirintos e o clima épico de Adventure, do Atari. No entanto, no auge dos meus sete anos de idade, não fazia ideia de como jogar essa birosca. Vinte anos depois (21, vai), encarei novamente a parada e fiquei feliz em constatar que prossigo sem a mínima noção de como lidar com aqueles patos estranhos do jogo.
E aquela época em que resolveram lançar o tal de Jaguar? Era propaganda para tudo que é lado, promessas de 3D e um marketing dos sonhos para a molecada do vício. Que que é isso… O lance é uma charanga, o controle é uma calculadora e o jogo exposto, uma bomba. Resumo da ópera: foi pro buraco junto com as fitas do ET lá em oitenta e poucos.
Lição de Moral
Falta muita coisa para que a Game On trace um histórico completo desse nosso costume besta. Mas é extremamente gratificante saber que o tema já comporta uma estrutura dessas, em um museu bacana, com instalações decentes e três horas de tempo livre para desbravar fliperamas e consoles – tudo a R$ 10 (R$ 5 para estudantes).
Mas é melhor parar por aqui com essa converseira, afinal, nessa idade, com essa barba na cara, em plena quinta-feira à tarde eu devia estar é trabalhando – e não mexendo com joguinho. Ou eu estou errado?
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